A doença falciforme, uma condição genética e hereditária, manifesta-se de formas mais complexas do que a simples anemia, como é frequentemente percebida. A hematologista Marimília Pita, em entrevista à Agência Brasil, desmistificou concepções errôneas sobre esta patologia, que acomete cerca de 100 mil brasileiros, conforme estimativas do Ministério da Saúde. A médica enfatizou que, embora todo portador da doença falciforme seja anêmico, a condição transcende a anemia, afetando múltiplos órgãos e sendo transmitida de geração em geração.

A anemia é, de fato, um dos primeiros e mais evidentes sinais da doença falciforme, decorrente de uma alteração nas hemácias, as células responsáveis pelo transporte de oxigênio. Em indivíduos afetados, essas células perdem seu formato arredondado característico e adquirem uma forma alongada, semelhante a uma foice, daí o nome da doença.

Essa morfologia alterada compromete a longevidade das hemácias, que se fragmentam mais cedo do que as células normais, levando a um quadro de anemia crônica. Além disso, a rigidez dessas hemácias em formato de foice pode obstruir a circulação sanguínea, causando o que são conhecidos como "microinfartos" em diversas partes do corpo, incluindo órgãos vitais como coração e olhos. Com o tempo, essa deficiência circulatória pode levar ao desenvolvimento de cardiopatias, pneumopatias e nefropatias.

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Diagnóstico precoce via Teste do Pezinho

O diagnóstico da doença falciforme pode ser realizado precocemente através do Teste do Pezinho, exame obrigatório e gratuito para recém-nascidos, que inclui a pesquisa de hemoglobina desde 1992. O diagnóstico na infância é crucial para um acompanhamento mais eficaz e para a prevenção de complicações graves, como infecções, que representam uma das principais causas de mortalidade em crianças com a doença.

Embora a cura definitiva seja rara, o tratamento médico contínuo pode atenuar os sintomas e melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Em casos selecionados, o transplante de medula óssea oferece uma alternativa curativa, desde que o paciente atenda aos critérios e haja um doador compatível.

Crises de dor intensa e desafios no tratamento

As crises de dor intensa são outro sintoma marcante da doença falciforme, provocadas pela obstrução dos vasos sanguíneos pelas hemácias anormais. Essas dores, frequentemente localizadas em ossos e articulações, podem ser extremamente severas, necessitando de internação em unidades de terapia intensiva e administração de analgésicos potentes, como a morfina. Há uma preocupação com a subnotificação e o manejo inadequado dessas crises no Brasil, contrastando com índices mais elevados de administração de morfina em outros países.

Impacto do racismo estrutural

A hematologista Marimília Pita também aborda o impacto do racismo estrutural no contexto da doença falciforme. Por ter origem em uma mutação genética mais prevalente na população negra, a doença frequentemente enfrenta estigmas e dificuldades adicionais no acesso a cuidados de saúde adequados, especialmente em um país com profundas desigualdades socioeconômicas e raciais. É fundamental desmistificar a ideia de que a doença falciforme é exclusiva de determinados grupos étnicos, pois ela é uma condição mundial que afeta diversas populações.

Relatos de pacientes: superação e resiliência

Histórias como a de Nilceia Alves Gomes da Silva, cuja filho Agner Eduardo da Silva foi diagnosticado com a doença falciforme, ilustram a jornada de muitos pacientes e seus familiares. Apesar dos desafios impostos pela condição, a busca por diagnóstico, tratamento e a garantia de direitos são pilares para uma vida plena.

Lucas Henrique Gama Nascimento, outro paciente com a doença falciforme, compartilha suas experiências sobre as limitações físicas e emocionais, mas também sobre a importância do apoio familiar e da busca por conquistas pessoais. Sua trajetória inclui a formação acadêmica, a atuação profissional e a superação de sequelas, além da publicação de um livro que visa inspirar outras pessoas a lidarem com adversidades.

FONTE/CRÉDITOS: Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil ​