A escritora e pesquisadora Carla Akotirene criticou a visão simplificada que a sociedade costuma ter sobre o racismo estrutural durante a aula inaugural do 14º Congresso Brasileiro de Pesquisadores(as) Negros(as) (Copene), realizado na Universidade de Brasília (UnB). Segundo a intelectual, o debate público reduziu a discriminação racial a episódios isolados de ofensas verbais, invisibilizando as violências diárias perpetradas pelas próprias instituições públicas.

Em sua fala, Akotirene enfatizou que a militância não pode se limitar a denunciar flagrantes filmados. Ela alertou que abusos graves ocorrem de forma contínua em ambientes onde a captação de imagens é proibida, a exemplo de unidades do sistema de saúde e estabelecimentos penitenciários.

Violência institucional e o sistema prisional

Com base em um estudo etnográfico que realizou em um presídio feminino na Bahia, a pesquisadora afirmou que a estrutura carcerária opera como um braço direto da discriminação. Ela sustentou que, quanto piores são as condições da prisão, maior se torna a função racista no cumprimento da pena.

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A palestrante também defendeu que a comunidade acadêmica se dedique mais ao estudo da lei de execução penal brasileira. De acordo com Akotirene, existe um profundo desconhecimento sobre o tratamento dispensado às pessoas privadas de liberdade, sobretudo às mulheres negras, que seguem vitimadas pela violência do Estado e pelo patriarcado.

Engajamento acadêmico e viés do sistema de justiça

O 14º Copene segue com programação até sexta-feira, reunindo trabalhos de ensino, pesquisa e extensão direcionados às relações étnico-raciais. As discussões buscam dar visibilidade a iniciativas comunitárias e políticas que fortalecem o combate às desigualdades no Brasil.

Ao relembrar sua trajetória como a primeira pessoa da família a ingressar na faculdade, a escritora prestou homenagem às lutas do movimento negro que reconfiguraram as universidades públicas no país.

Akotirene concluiu sua apresentação denunciando o viés do sistema de justiça, que atua para criminalizar prioritariamente a população preta e parda. Segundo a pesquisadora, essa dinâmica se manifesta desde abordagens policiais violentas nas comunidades até a condução acelerada dos processos de prisão em flagrante.

FONTE/CRÉDITOS: Luiz Cláudio Ferreira – Repórter da Agência Brasil